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27/01/2010
Catechesi Tradendae - Capítulo III (22/25)
 
 
 

 

22. É vão tentar jogar com a «ortopraxis» contra a ortodoxia: o Cristianismo é inseparavelmente uma coisa e outra. Convicções firmes e refletidas levam à ação corajosa e correta; o esforço por educar os fiéis para viverem nos dias de hoje como discípulos de Cristo, reclama e facilita a descoberta aprofundada do Mistério de Cristo na história da Salvação.

É vão igualmente apregoar o abandono do estudo sério e sistemático da mensagem de Cristo, sob o pretexto de uma preferência metodológica pela experiência vital. «Ninguém pode alcançar a verdade integral mediante uma simples experiência privada, quer dizer, sem uma explicação adequada da mensagem de Cristo, que é 'Caminho, Verdade e Vida' (cf. Jo. 14,6)» (51).

Também não se há de opor catequese a partir da vida a uma catequese tradicional, doutrinal e sistemática (52). A catequese autêntica é sempre iniciação ordenada e sistemática à revelação que Deus fez de Si mesmo ao homem, em Jesus Cristo. Esta revelação está conservada na memória profunda da Igreja e nas Sagradas Escrituras, e é constantemente comunicada, por uma «traditio» (tradição) viva e ativa, de uma geração a outra. Essa revelação não está isolada da vida, nem justaposta a ela de maneira artificial, mas refere-se ao sentido último da existência; esclarece-a totalmente, para a inspirar e para dela ajuizar criticamente, à luz do Evangelho.

É por isso que podemos aplicar aos catequistas aquilo que o Concílio Vaticano II aplicava especialmente aos sacerdotes: educadores — do homem e da vida do homem —na fé .

Catequese e Sacramentos

23. A catequese está intrinsecamente ligada a toda a ação litúrgica e sacramental, pois é nos Sacramentos, sobretudo na Eucaristia, que Cristo Jesus age em plenitude na transformação dos homens.

Na Igreja primitiva, o catecumenato e a iniciação aos Sacramentos do Batismo e da Eucaristia identificavam-se. Muito embora a Igreja nos antigos países cristãos, tenha mudado a sua prática neste campo, o catecumenato nunca neles foi abolido; ao contrário, está a ter até uma renovação  e é amplamente praticado nas jovens Igrejas missionárias. De qualquer maneira, a catequese conserva sempre uma referência aos Sacramentos; toda a catequese leva necessariamente aos Sacramentos da fé. Por outro lado, a autêntica prática dos Sacramentos tem forçosamente um aspecto catequético. Por outras palavras, a vida sacramental empobrece-se e depressa se torna ritualismo oco, se não estiver fundado num conhecimento sério do que significam os Sacramentos. E a catequese intelectualiza-se, se não for haurir vida na prática sacramental.

Catequese e comunidade eclesial

24. A catequese, por fim, tem uma ligação íntima com a ação responsável da Igreja e dos cristãos no mundo. Aqueles que aderem a Jesus Cristo pela fé e se esforçam por consolidar essa fé na catequese, têm necessidade de viver em comunhão com outros que deram o mesmo passo. A catequese corre o risco de se esterilizar, se uma comunidade de fé e vida cristã não acolher o catecúmeno a certo passo da sua catequização. É por isto que a comunidade eclesial, a todos os níveis, é duplamente responsável em relação à catequese: antes de mais, tem a responsabilidade de prover à formação dos próprios membros; depois, também a de os acolher num meio ambiente em que possam viver o mais plenamente possível aquilo que aprenderam.

A catequese está igualmente aberta ao dinamismo missionário. Se for bem conduzida, os próprios cristãos terão a peito dar testemunho da sua fé, transmiti-la aos filhos, dá-la a conhecer a outros e servir de todas as maneiras a comunidade humana.

Necessidade da catequese no sentido lato, para a maturação e o vigor da fé

25. Graças, pois, à catequese, é que o «kerigma» evangélico — aquele primeiro anúncio cheio de ardor que a dada altura transforma uma pessoa e a leva à decisão de se entregar a Jesus Cristo pela fé — será pouco a pouco aprofundado, desenvolvido nos seus corolários implícitos, explicado mediante explanação que apele também à razão e oriente à prática cristã na Igreja e no mundo. E tudo isto não é menos evangélico do que o «kerigma», embora não falte quem diga que a catequese tende forçosamente a racionalizar, ressequir e até a matar o que há de vivo, espontâneo e vibrante no «kerigma». As verdades que se aprofundam na catequese são as mesmas que tocaram o coração do homem, quando este as ouviu pela primeira vez. O fato de as conhecer melhor, longe de as embotar ou de as fazer ressequir, torna-as ainda mais estimulantes e decisivas para a vida.

Na concepção que acaba de ser exposta, a catequese conserva uma perspectiva toda pastoral. Foi assim que o Sínodo intentou considerá-la. Este sentido amplo da catequese não contradiz, antes abarca e ultrapassa aquele sentido mais estrito da mesma, outrora comumente apresentado nas exposições didáticas como simples ensino das fórmulas que exprimem a fé.

Em última análise, a catequese é tão necessária para o amadurecimento da fé dos cristãos, como para o seu testemunho frente ao mundo: o seu intento é levar os cristãos «à unidade da fé, ao pleno conhecimento do Filho de Deus e ao estado de homem perfeito, até alcançar a medida da plena estatura de Cristo» , depois, fazer também com que os cristãos estejam aptos a justificar a sua esperança perante todos aqueles que lhes perguntarem as razões dela .

 

 
 
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