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27/08/2018
PATINHO FEIO - Histórinha
Aquele coração tão bonito me fez chorar!
 
 
 

Porto Belo, SC, 20 de Agosto de 2018

 

PATINHO FEIO

20180820

 

 

Não! Este não era o seu nome e nem o seu apelido e nem sei porque agora me veio a lembrança dele e esta ideia de chama-lo de Patinho Feio.

Cado não conseguia aprender rápido as matérias:

- Cabeça dura – diziam os amigos...

Mas ele se esforçava e era capaz de ficar horas e horas sobre um livro de gramática ou matemática afim de decifrar o conteúdo e entender a matéria.

Sempre em movimento – nas aulas, nos esportes, nos trabalhos sempre primava pelo melhor e sempre se esforçava para fazer o melhor para todos, em todos os sentidos.

E era obediente.

Seu trabalho era varrer o pátio: uma hora por dia e isto fazia bem, e cuidava para que tudo permanecesse limpo, e assim, mesmo fora de seu horário procurava cuidar e de vez em quando se via juntando papéis ou objetos pelo chão para colocá-los no lixo...

- Não precisas fazer isto agora! Não é hora de seu trabalho...

- Mas minha obrigação é manter o pátio limpo...

- Não foi você que sujou...

- Não! Eu não sujo! Eu mantenho limpo. E não foi você também, porque você é meu amigo e não sujaria o pátio para dar trabalho para mim!

Respostas sábias e diretas sempre saiam de sua boca e isto o fazia parecer antipático e fazia com que muitos não gostassem de sua companhia.

Era desajeitado e por onde passava deixava sua marca: derramava café, quebrava copos, caía das pereiras, se enroscava nos espinhos das amoreiras, caia das escadas... Era tímido!

Mas limpo! Muito asseado! E mesmo não sendo entendido por muitos, preocupava-se com todos.

Em um certo dia de rigoroso inverno, o Responsável pelo dormitório pediu:

-Alguém de vocês tem um cobertor sobrando, para emprestar a alguém que não tem? Ou lençol, ou edredom...

- Eu tenho, disse prontamente o rapaz. E entregou o que tinha.

No meio da noite, o responsável, durante a vigia, percebeu. Percebeu e acordou rapaz:

- Cado, Você ficou sem nada?

Cado dormia sobre a tabua crua da cama, sem colchão, sem lençol...

- Você vai ficar doente!

- Não! Mas os outros ficariam se eu não lhes desse os agasalhos, os lençóis...

De lição em lição íamos aprendendo a viver o sentido do amor verdadeiro, através daquele que era como que, marginalizado pelos demais: desajeitado, tímido, sem graça...

- Mas, o que há de bom no Cado?

- A Caridade, a preocupação para com os outros, a obediência...

Um dia, se dirigiu ao superior:

- Padre, onde posso colocar estes capins que tirei dos canteiros, já que o responsável pelo jardim não está aqui?

- Coloque debaixo de minha cama – disse o padre, de mau humor.

Não é preciso dizer que quando o Superior foi dormir, encontrou sob sua cama o balaio cheio de capim!

Não soube como agir mas lembrou de seu erro em mandar o Cado colocar o cesto ali.

- Ele é obediente demais! É diferente dos outros! E rezou! E usou deste exemplo na sua homilia da Santa Missa do dia seguinte!

- É obediente! É honesto...

- E até “chato”...

- Mas tem tantos que gostam dele...

A maioria dos alunos que ali estudavam eram filhos de italianos, vindos de Nova Trento, SC e se comunicavam em italiano até que houve a proibição do superior:

- De hoje em diante não se fala mais o italiano aqui, pois isto atrapalha o aprendizado do nosso idioma, o português. Portanto, providências serão tomadas aos que não cumprirem esta ordem!

E assim aconteceu! Mas as dificuldades dos que só sabiam falar italiano foram muitas, e de vez em quando via-se alguns quebrando as regras, principalmente quando o superior não estava por perto.

E num desses momentos, um de seus colegas falou:

- Cado, você não precisa ter medo de se comunicar em italiano: percebe-se a tua dificuldade em falar o português e além do mais, o padre está longe!

- As regras são feitas para nos educar, ainda que muitas delas não nos agradem! – disse o Bom Cado!

E o rapaz, tão diferente dos outros, cada vez mais se tornava exemplo de sabedoria, de paciência, de discernimento...

E deixou saudades!

O Patinho Feio – das fábulas – era feio enquanto não era igual aos outros, até que se tornou bonito para a verdadeira Mãe e verdadeiro Pai!

Um dia, o Superior falou a todos:

- Amanhã não teremos pão no café matinal: acabou o trigo e não há como compra-lo agora à noite e então no café comeremos bolinhos do arroz que sobrou do meio dia.

Cado gostava de bolinhos de arroz e por isso não se importou que não haveria pão...

- Mas no café da manhã o pão é tão gostoso! Além disso, a maioria dos rapazes não gostam de bolinho...

Sua cabeça não parava de pensar!  Seu cérebro procurava uma saída...

- Eu sei fazer pão: Eu vi o Hilário fazer: É fácil! Mas cadê o trigo?

(É importante salientar que ele se esforçava em ter os pensamentos em português, porque se fossem em italiano, quantos “sacorotos” e quantos “porca miséria” sairiam de sua boca!)

Pensou, pensou...

- Vou pedir trigo no vizinho!

Qual vizinho? Quem poderia ter trigo suficiente para alimentar quase cem pessoas?

Pensou, pensou...

- Já sei! A Fábrica de arroz! Eles também vendem trigo no armazém...

E às 23 horas, o próprio dono da Fábrica de Arroz - como era conhecido o seu estabelecimento – levou uma saca de cinquenta quilos até a “Padaria” do seminário!

Silêncio profundo! Só Cado estava acordado!

E na manhã seguinte, via-se o rapaz: exausto, sonolento, trazendo para as mesas, o pão fresquinho e saboroso!

- È pão do Cado! Viva o Cado!

Após o café, o Superior procurou o dono da Beneficiadora, afim de acertar as contas:

- Cobrar o que? Aquele coração tão bonito me fez chorar! Me fez refletir! E isto Senhor Padre, não há dinheiro que pague! Honrem aquele Santinho e peça a todos os que ali vivem que se alimentem sobretudo da Sabedoria, Responsabilidade, Bondade, do Amor deste rapaz! Ele é único!

Cado se tornou Sacerdote e eu nunca mais o havia visto até que há pouco tempo, quando em passagem por aquela cidade, pude ver nos murais da Prefeitura, no Hotel, nas Praças principais, na Igreja, placas que diziam:

“O povo desta cidade agradece ao Reverendíssimo Padre Cado, os relevantes serviços prestados, não só a esta cidade, mas a todos quantos o procuraram e tiveram a honra de terem convivido, por algum tempo, em sua extraordinária companhia!”

Amém!

Cláudio Heckert  

 

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