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13/11/2014
MAGNÂNIMO CORAÇÃO
Zulmira diante do Sagrado Coração.
 
 
 

Magnânimo Coração

 

Corria o ano de 1960.

O nome da mulher era Zulmira, 83 anos, estatura mediana, muito pesada, arrastava seu corpo, já cansado, quase sempre buscando algum apoio nos bancos da Igreja.

Todos os dia a víamos na Santa Missa: Seu primeiro ato, pós uma piedosa genuflexão diante de Jesus no Santo Sacrário, consistia em homenagear o Sagrado Coração de Jesus, em sua grande e bonita imagem, no altar lateral, à esquerda, na nave da Igreja.

Este altar era sempre ornamentado por ela, com muitas flores, arranjos, fitas, e, esmeradamente limpos: altar e imagem.

Prostrava-se de joelhos ali, e fazia suas orações em silencio, antes e depois da Santa Missa, quando então, apagava as velas e seguia seu caminho de volta para casa que distava, além de dois quilômetros.

Nesta época, eu era responsável pela Capela, como sacristão, e permanecia ali, até o último dos fieis irem embora, quando então eu fechava as porta e também mia embora.

E o último a sair era sempre a Zulmira.

No inicio, eu até admirava a sua fé, seu silencio contemplativo, sua piedade, mas, com o passar dos dias, sua demora a sair, começou a me perturbar:

- Esta mulher já rezou horas, antes da Missa, durante a Missa, será que precisaria ainda rezar depois da Missa? Será que não percebe que eu preciso ira para casa?

Num certo, dia, após a Missa das dezenove horas, resolvi convidar alguns amigos do seminário, para aprontar-lhe uma peça. Um destes  seminaristas, possuía um projetor de filmes que, diga-se de passagem, ele mesmo havia inventado, com latas de azeite de cozinha, lâmpada velha que enchia de água e servia de lente... Funcionava!

E o filme escolhido para ser projetado na parede branca da Igreja Luterana, que ficava na estrada por onde a mulher passaria, chamava-se: Dança do Ossos!

E assim, quando Zulmira passava diante da Igreja, começou a ver esqueletos dançando, pulando, gesticulando...

Por uns instantes, parou...

- Coitada da velha! Como ela vai conseguir correr?

Eu já estava arrependido!

- Ela vai é morrer!

Mas não aconteceu nem uma coisa, nem outra: a mulher balançou a cabeça, e seguiu calmamente, amparada por sua velha bengala!

Alguns suspiraram aliviados, pois sentiam-se envergonhados, arrependidos e outros ficaram decepcionados.

- A velha escapou...

- É! Ela é forte!

No dia seguinte, primeira Sexta Feira, a Santa Missa era própria ao Sagrado Coração de Jesus – Missa do Apostolado da Oração – e eu, o primeiro a chegar na Igreja, a preparava para a Santa Missa e a Bênção do Santíssimo, que sempre acontecia no final, quando o Santíssimo era levado em procissão, pela nave, contornando os bancos. Tudo isto era feito com carinho, com amor e verdadeira piedade, que se via estampada no rosto do celebrante e nos dos fiéis, criando um clima de Céu, que emocionava a todos.

Antes da Santa Missa, porém, lá já estava Zulmira, diante do Sagrado Coração, retirando flores velhas e murchas e entregando novas flores a Jesus, limpando o altar, acendendo velas...

Uma das flores, agora murcha, estava nas mãos da imagem, e como ficava muito no alto, Zulmira pediu a um jovem que a tirasse de lá e assim, tudo ficou muito limpo e bonito.

Estranhei, a princípio, por ela não ter colocado uma nova flor nas mãos de Jesus!

Por causa do fato acontecido na noite anterior, eu a fitava ininterruptamente, com curiosidade, para descobrir nela algum sinal, algum ato de reprimenda, pois de fato, ela poderia contar ao Padre, e este, certamente haveria de tomar providencias. Eu me sentia muito culpado e evitava seu olhar, que certamente, seria de raiva.

- Ela vai “descascar” em mim. Afinal, serei o último a sair e ela estará me esperando...

Nesta hora fiquei com vontade de não ser mais sacristão! Que fazer?

Terminadas as cerimônias – tudo lindamente cantadas pelo coral do Seminário – esperei, como sempre, o povo sair.

Percebi que muitos ofereciam “carona” à mulher, e eu torcia para que aceitasse...

- Aceita! Aceita!

E ela não aceitou!

- Ela quer me “ferrar”!

A Igreja vazia – só ela e eu – comecei a guardar as coisas, procurando ficar sempre distante dela: ela me assustava! Aproximou-se de mim:

- Menino, você está assustado!

-(Como é que você sabe? Pensei.)

- Não precisa ter medo: eu estou viva!

- (Ai, ai, ai...)

- Já imaginou se eu estivesse igual àqueles ossos?

- (Pronto! Ela sabe que fui eu...)

- Mas sabe, menino, os ossos não fazem mal a ninguém! Mas os que os manipulam, com os que lidam com eles...

- Que acontece com os que lidam com eles?

- Você fala! Que bom! Senta aqui: quero conversar com você.

Me arrepiei, mas sentei-me no banco à frente do Sagrado Coração.

- Olha bem para Jesus: percebes como Ele te olha?

Minha voz não saía, e a mulher repetiu a pergunta:

- Percebes como Ele te olha:

- Mas é só uma imagem,- eu falei - engasgado.

- Olha como Jesus te olha, através de Seu olho, na imagem.

- (Esta mulher está louca...)

- Você não vê?

- Dona Zulmira, Jesus está na Eucaristia, na Hóstia, entende? Não na imagem.

- Jesus não está na Hóstia! Jesus é a Hóstia!

- (Não, ela não é louca: ela sabe das coisas!

- Jesus é a Hóstia. A Hóstia é Jesus! E como Jesus é Deus, Ele pode estar em todos lugares, e por isso, neste momento Ele está aqui, nos olhando através dos olhos de Sua imagem...

Confesso que me corpo era um arrepio só...

- Sabe, menino, eu gosto de conversar com Jesus: Ele é tão generoso, tão sábio, tão misericordioso...

- Sei, sim senhora.

- E Ele te ama tanto!

Fiquei gelado.

- A mim?

- E por que não? Você não gosta Dele?

- Sim, eu O amo, mas... coitado de mim...

- Ele ama a todos e ama os “coitados” também... Sabe o que Ele disse a Santa Margarida?

- Ouvi dizer qualquer coisa...

- Não foi qualquer coisa. Jesus disse palavras de sabedoria e de muito amor!

- E o que Ele disse?

- São muitas coisas. São doze as suas promessas. Mas uma importante é de que as pessoas que tiveram alma limpa e Comungarem nove meses, nas Primeiras Sextas Feiras do mês, não perderão o Céu...

- Todas?

- Sim, todas, desde que cultivem a alma limpa...

- Nove meses?

- Nove Primeiras Sextas Feiras, sim, são nove meses.

- Mas porque a senhora vem todos os dias à Santa Missa? A senhora não está garantida? Já fez tantas vezes as nove...

- Ah! Menino! Depois de fazer as nove. Não há como ficar longe de Jesus! A gente fica com vontade de vê-Lo todos os dias... E, sabe, filho, Jesus também tem vontade de falar conosco todos os dias!

- Minha mãe também era do Apostolado da Oração! Será que ela também falava com Jesus?

- É claro que falava! Jesus fala com todos os que O buscam!

Fiquei pensativo: é bem verdade que minha mãe rezava muito. Que me ensinava a rezar, mas, falar com Jesus?

- Sabe, filho: Eu sei que às vezes eu atrapalho vocês ficando muito tempo na Igreja, mas eu sempre peço a Jesus para que, um dia vocês também sintam esta mesma vontade de ficar horas e horas com ele...

Eu não sabia responder! Estava envergonhado: afinal, eu me preparava para ser padre, ela me ensinava a ser Santo!

 No silencio que se seguiu, pus-me a contemplar a sua oração: olhos fixos na imagem e nenhum movimento se via em seu corpo! Estava em êxtase! E eu chorei!

-( Por que sou tão estúpido? Por que não percebia antes de eu também posso conversar com Jesus?)

E, coisa extraordinária: a mulher levantou o braço na direção da imagem, levando em sua mão uma rosa, oferecendo-a a Jesus...

Eu fiz menção de ajudá-la a colocar a rosa nas mãos de Jesus, mas, mais uma vez me senti estúpido:

Jesus estendeu o seu braço à Zulmira e pegou a rosa, levando-a até o Seu Coração!

Agora, era a minha vez de ficar horas e horas... E a mulher me tirou o êxtase:

- Vamos, menino, eu vou com você! E, não quero saber o que Jesus disse a você, porque sei que é segredo, mas para mim ele disse:

- Filhinha, reze muito por este menino...

- E assim, eu farei! Sim?

- Si, senhora!

- Agora vamos?

- Vamos!

- Sem ossos?

- Sim, sem ossos, sem esqueletos...

- Então, voaremos...

- Amém!

Em 2006, 46 anos depois, visitei esta Igreja, e pus-me muito rapidamente à frente da Imagem do Sagrado Coração de Jesus: a mesma imagem!

No olhar de Jesus, vi o sorriso de Zulmira...

- A Senhora já está lá...

- Já voei!

- Sem ossos? Eu sorri!

- Sem ossos!

E Jesus também sorriu...

 

Cláudio Heckert

 

Porto Belo (SC), 22 de agosto de 2014

 

 

 
 
Artigo Visto: 1967 - Impresso: 44 - Enviado: 23
 

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